FASHION
A escolha de peças delicadas no trabalho da Chanel em Haute Couture e o novo "luxo" do tempo disponível
Matthieu Blazy, diretor criativo da Chanel, retorna às origens de simplicidade elaborada da marca
MJ Olmos
17 de março de 2026

A marca Chanel se estabeleceu em 1910 com o intuito de substituir roupas femininas ultrapassadas, priorizando conforto, função e elegância. Coco Chanel, fundadora da marca, canalizou seu desejo de liberdade na modernização de peças de vestuário para que estas priorizassem o essencial, por meio de uma “simplicidade elaborada”.

Essa simplicidade elaborada implica a criação de algo que parece simples, mas que exige esforço, seja por tempo ou dinheiro, para vir a ser. A fundação da marca tem suas raízes ligadas à Segunda Guerra Mundial, e Chanel, como pessoa, é uma figura muito discutida, por conta de suas ligações com uma Alemanha antissemita. Seu legado, felizmente, transformou-se por meio do trabalho de designers e colaboradores que deram sua visão à marca e criaram um imaginário coletivo distante de um início duvidoso.

Em seu site oficial, Chanel disponibiliza informações de transparência de produção e ética, como o compromisso, na Califórnia, com cadeias de fornecimento: verificação, auditoria, certificações, treinamento e responsabilidade. Há, também, uma seção dedicada à justiça racial, com esforços de inclusão e reparação por meio de doações a fundações. Ainda, há uma página dedicada a metas de sustentabilidade, estabelecida em setembro de 2020, com a emissão de 600 milhões de euros em títulos vinculados à sustentabilidade (“Sustainability-Linked Bonds”), uma iniciativa que vincula os retornos financeiros a metas climáticas específicas. Caso estas metas não sejam cumpridas entre 2025 e 2030, Chanel pagará aos investidores.

Não é coincidência ou naturalidade que uma marca estabelecida como Chanel torna estas páginas visíveis em seus meios de comunicação. Nos dias de hoje, em um mundo online, o público, mesmo que não seja o consumidor, exige consciência. A discussão entre “slow fashion” e “fast fashion” é grande: vemos a produção em massa de vestuários que seguem tendências efêmeras, que, com certeza, acabarão em um aterro, esquecidas. Em 2026, Chanel dá continuidade ao compromisso ético, mas também ao artístico. Voltando ao conceito de simplicidade elaborada, a marca retoma a elegância intencional por meio de confecções lentas, com materiais de alto padrão, dando atenção a todos os estágios de produção. O foco é em tecidos leves, como musseline de seda, de estrutura fluida, e bordados sutis, sob a visão de Matthieu Blazy, diretor criativo da Chanel. Os acessórios e maquiagem, por sua vez, são mínimos. É uma coleção pensada nos moldes de sua fundação, com foco em conforto e elegância para qualquer situação ou momento de vida.

O tempo disponível para a confecção de peças assim é o que podemos chamar de “novo luxo”: em um mundo com cadeias de produção rápidas, pouco pensadas, o valor do tempo cresce. O artesanal lento é custoso; no entanto, o produto final é de elegância intencional, confeccionada por meio de paciência, contra a preferência pelo instantâneo para acompanhar tendências. Isso posiciona Chanel novamente como uma marca preocupada com seu compromisso artístico. A alta-costura (haute couture) não se define apenas pelo preço, sendo este outro debate. O valor do qual falamos é aquele elevado pelas mãos de quem confecciona. A apreciação por esse trabalho, do ponto de vista de quem consome estes produtos, é silenciosa. Embora haja ostentação em compras de alta-costura, uma vez que a exclusividade também é produto a se mostrar, há um olhar voltado para o trabalho ao redor das peças. Quem investe nas peças espera não só o retorno estético, mas o compromisso com qualidade e durabilidade. Não é à toa que Chanel é vista como atemporal. Suas confecções superam tendências exatamente porque são pensadas para atravessar essas passagens, e sua posição como ícone é sustentada pela apreciação de suas coleções como arte em si.
A coleção verão/primavera 2026 leva as confecções para a essência de Coco Chanel ao criar a marca: elevar tecidos tomados como ordinários à excelência. É interessante pensar no contraste entre o trabalho árduo para a confecção dessas peças para se obter resultados simples. O tom, porém, permanece. O luxo está, de fato, na simplicidade elaborada. O comprometimento de Chanel ao alinhar o ético com o artístico no mundo atual demonstra ciência de impacto de marca em uma sociedade com atenção voltada ao fast fashion, o que reflete na sustentabilidade da marca a longo prazo. A preocupação com cadeias de produção e as pessoas que fazem parte delas é resultado das mudanças sociais que vemos acontecendo na moda. Como já mencionado, consumir com consciência está se tornando um ato de resistência ao que desmerece e destrói essa essência artística. A escolha dessas peças delicadas é intencional, e Matthieu Blazy deixa isso claro ao retomar as raízes da marca em sua direção criativa.

Para mais peças do desfile, confira a galeria oficial da marca.
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