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FASHION
Estilo pessoal em tempos de consumismo
Nossas identidades estão ligadas a um espaço online, e este espaço é constante em apresentar estilos de ser e viver que podem ser comprados, mesmo que não expressem quem você é ou o que você gosta.
MJ Olmos
21 de novembro de 2025

Falar sobre moda atualmente exige falar sobre consumismo. Em tempos de mídias sociais e compras com um clique, o acesso a (excesso de) itens pessoais anda lado a lado com o ciclo de vida de uma tendência. Há um status associado a fazer parte dessas tendências: obter determinado item lhe coloca em determinada bolha social online, mesmo que de sua própria casa e sem necessariamente formar uma comunidade para tanto. As roupas não escapam desse ciclo de vida, de “viral” a esquecidas em poucos meses.
Lynn Yaeger, editora e escritora de moda para a Vogue, é conhecida por seu estilo excêntrico, cabelos laranja estilo flapper e batom pintado em formato de coração. Em um de seus artigos para a Vogue, sobre estilo pessoal, a escritora discorre sobre moda como algo identitário, associado ao seu modo de ser. Para ela, é um processo incorporado à sua rotina já. O ato de passar sua roupa e vesti-la, por exemplo, em meio a adversidades, demonstra como é intrínseco a si, na forma desses rituais que fazem parte do viver. Em entrevista para Michelle Liu em 2013, Yaeger descreve que seu estilo evoluiu a partir de roupas vintage, o que, para ela, foi uma forma de canalizar sua obsessão por roupas e estilo sem ter de se alinhar a tendências, que trocam toda hora. De acordo com Yaeger, as tendências não combinavam com ela, e sua filosofia de estilo envolve usar o que quiser, com um esforço consciente para tornar isso realidade.

A jornada de estilo pessoal, usando Lynn Yaeger de exemplo, se enlaça ao descobrimento de si e de como passamos nosso tempo em vida. Iris Apfel, designer norte-americana, se alinha a esse pensamento. Para Apfel, ter estilo pessoal é ter extrema curiosidade sobre si mesmo, o que envolve riscos e a escolha consciente de não se alinhar a tendências como parte desse esforço. No podcast Fashion Neurosis, de Bella Freud, Ocean Vuong, poeta e escritor, debate a obsessão do mundo por estilo como um tipo de “marca” pessoal. Para ele, estilo, na verdade, tem a ver com desejo e com o que você realmente quer para si. Estilo, então, é algo no horizonte, e a motivação para se mover nessa direção é alimentada por estratégias e métodos que lhe possibilitarão suprir esse desejo.

Em SLC Punk!, filme de 1998, a mensagem central está em ser quem você é “de verdade” ou ser um “poser”, contrastando rebelião com estética e confrontando a realidade de crescer e se desenvolver como pessoa. Em uma discussão entre personagens, questiona-se o estilo punk como um uniforme, associando-o à “moda” em vez de revolta genuína. Embora esse argumento disponha de moda como algo vazio e vápido em contraste com algo que deveria ser profundo, o “ser”, como a revolta, o questionamento é válido e conversa com a ideia de Apfel de que a identidade, e a certeza desta, é o precursor para o estilo pessoal dentro do mundo da moda. Essa subcultura tornando-se uniforme, ainda, é outro assunto mais profundo relativo à diluição de propósito por meio de tendências; no entanto, o argumento de consumismo e tendências afetando a jornada de estilo pessoal permanece:
Original: "You want to be an individual right? You look like you’re wearing a uniform. You look like a punk. That’s not rebellion, that’s fashion… Rebellion happens in the mind."
Tradução: "Você quer ser um indivíduo, certo? Parece que você está usando um uniforme. Você parece punk. Isso não é rebeldia, isso é moda... Rebeldia acontece na mente."
Aqui, a palavra “moda” aparenta ter o significado intercambiável com “tendência”, de forma pejorativa. Historicamente, o papel da moda como expressão individual de subculturas é orgânico, ao contrário de uma vestimenta de “uniforme” para aparentar ser de uma subcultura, o que justifica o uso da palavra no filme para significar “tendência”.

Por que tendências afetam estilo pessoal e como melhoramos?
Tendências sempre existiram, não é algo exclusivo da nossa era tecnológica. As mulheres conhecidas como flappers na década de 1920, inspiração para o cabelo de Lynn Yaeger, também seguiam tendências. Maria Antonieta era famosa por lançá-las no século 18. No entanto, o formato com o qual elas são apresentadas atualmente é característico deste momento. Para falarmos de tendências nos dias de hoje, é necessário considerar mídias sociais. Eventos de vida pessoal se associam a cliques: curtir, comentar, compartilhar. O quanto você consome de água é compartilhado, e a obsessão por Pilates ou chá matcha está ligada a um algoritmo que lhe alimenta com postagens disso. Somos influenciados por comportamentos online. Há mais pressão em correr uma maratona ou atingir algum objetivo, pois tanto o progresso quanto o resultado são postados, e nós queremos que isso seja visto como parte da imagem que criamos em redes sociais. Estamos cansados de saber que o perfil de um usuário nunca condiz com sua realidade, embora essa consciência não seja motivo o suficiente para que paremos de reproduzir esse comportamento. Como usuários dessas redes, associamos o viver com o que gera “likes”, o que é compartilhável e, às vezes, embora nem sempre ético, lucrativo. Sua vida, portanto, se torna algo a consumir junto ao material que já consumimos dos outros. Às vezes nomeadas como um “terceiro espaço” em nossa era, em contraste com primeiros espaços (nossas casas) e segundos espaços (trabalho), as plataformas online substituíram grande parte do que fazíamos em comunidade além de trabalhar e estar em casa. Agora, podemos, a qualquer momento, “participar” desse terceiro espaço, mesmo que, ainda, sentindo-se sozinhos e isolados, sem o esforço requerido para viver em comunidade. Abdicamos da inconveniência de esforços, que gerarão resultados positivos para criar laços, em prol de adormecer a mente nesse meio online.
A sua essência humana, aquela relativa à identidade e a como nos vemos e apresentamos no mundo, é substituída pelo consumo de itens como forma de suprir instantaneamente o desejo de pertencer e ser reconhecido. Esse desejo é, de fato, difícil de conciliar com nossos formatos de vida. Tudo é bruto e requer esforço, seja físico ou intelectual e emocional, para se concretizar. Comprar, nem tanto. O funil de participação de uma tendência quase sempre leva ao fim de consumir. A gratificação instantânea de compras toma o lugar desse esforço, que é valorizado por Yaeger e Apfel em suas buscas pessoais de estilo. Com a nossa maneira de ser se associando ao que consumimos, ficamos à mercê do possuir material. O possuir material torna-se o que você é, e a moda não escapa do objetivo de consumir para ser.
Nossas identidades estão ligadas a um espaço online, e este espaço é constante em apresentar estilos de ser e viver que podem ser comprados, mesmo que não expressem quem você é ou até o que você gosta. A imitação deixa de ser uma homenagem ou inspiração, com a motivação do desejo, dita por Vuong, se esvaziando e sendo substituída pelo mínimo esforço sem direção além do obter por si só. Assim, as pessoas têm algo em comum, mesmo que raso, atrelado também à gratificação instantânea de comprar, que é, temos de admitir, deliciosa, porém infinita. Não há como esgotar esse desejo com o possuir material, pois essa substituição é efêmera: logo, a felicidade de comprar o que você viu sendo usado pela sua influencer favorita é esgotada por outra vontade de consumir, e assim é o ciclo.
Além do mais, a ética da moda é muito debatida, e o consenso é de que tanto a produção quanto o consumo precisam ser mudados. Essa gratificação instantânea tem suas raízes em algoritmos, que, por sua vez, ditam a extensão da atenção do usuário. Nosso foco está no fim a se obter, não no meio, que é a jornada da qual Apfel, Vuong e Yaeger falam. O estilo pessoal é interceptado por peças baratas, temporárias, de origens incertas e incoerentes com as outras peças já existentes nos armários alheios. As “micro-trends”, que são essas tendências virais online, como Labubus, copos Stanley, estética cottage core ou clean girl, entre outras, ocupam o espaço que seu esforço por uma identidade deveria tomar. Estamos focados em peças que são descartáveis e acabarão em algum aterro ou praia em Bali. Tendências sempre existiram e continuarão a existir. No entanto, o pensamento crítico a respeito delas deve evoluir junto à vontade de ser, não de consumir.
O estilo pessoal não está morto, afinal, ainda somos, portanto, o impulso de criar existe. Como achamos nossa identidade em meio à tanta informação e gratificações rápidas é a pergunta do século, e esta pergunta reflete na moda e em como ela deverá se encaixar em nossas vidas como seres que se esforçam para ser, não consumir.
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