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FASHION

Moda representada na Beauty Fair

A moda não estava no centro da Beauty Fair, mas será que ela estava ausente? Dentro da edição deste ano, observamos que, mesmo em um ambiente essencialmente comercial, existem perspectivas entre técnica, identidade e estética, onde a moda encontra a beleza.

Lucas Lissa

14 de setembro de 2026

Um dos maiores eventos voltados ao universo da beleza no Brasil, a Beauty Fair não é uma fashion week, mas mostra-se capaz de apresentar tendências que ultrapassam o campo da beleza, como as capilares. Se a roupa é capaz de definir uma silhueta, o cabelo também pode alterar a maneira como o corpo é percebido. A moda não estava no centro da Beauty Fair, mas será que ela estava ausente? Dentro da edição deste ano, observamos que, mesmo em um ambiente essencialmente comercial, existem perspectivas entre técnica, identidade e estética, onde a moda encontra a beleza.


foto por @beautyfairprofissional
foto por @beautyfairprofissional

O evento, realizado em São Paulo, reúne profissionais que ajudam a construir o setor de beleza e, entre congressos, lançamentos e apresentações, também abre espaço para discussões sobre imagem e estética. No terceiro dia de programação, em 7 de setembro, o hairstylist William Anselmo apresenta a palestra “Total Look: como conectar a moda e o cabelo”, trazendo para o centro da discussão uma relação que muitas vezes passa despercebida: a construção de um look não termina na roupa. Cabelos, maquiagem e beleza também participam da maneira como uma imagem é construída - e é justamente nesse ponto que surge a pergunta: onde termina a moda e começam o cabelo e a maquiagem?


foto por @beautyfairprofissional
foto por @beautyfairprofissional

Renomado cabeleireiro e embaixador de Hair Art da Sebastian Professional, William Anselmo apresenta uma reflexão sobre a conexão entre moda e cabelo a partir do conceito de Total Look, aproximando duas linguagens que, embora atuem em campos distintos, compartilham uma mesma função: construir uma imagem.


Moda e cabelo

Para Anselmo, o cabelo não entra apenas como um complemento, mas como parte da construção de uma imagem, ao lado da maquiagem e da roupa. A relação entre esses elementos começa ainda na criação dos stylings, quando o profissional busca entender qual roupa será utilizada, seu estilo, tecido, corte e cores para, então, interpretar essas informações por meio do cabelo.


“Então, na criação dos stylings, eu sempre levo em consideração qual roupa, qual estilo a minha modelo vai usar. Converso com o stylist pra saber qual tecido, qual o corte, quais as cores, para aí sim eu interpretar isso e vir com o cabelo, porque o cabelo ele vai vir interligado, sendo muito relevante na construção de uma imagem desde desfiles de moda à desfiles para cabeleireiros também.”


A ideia do cabelo como interpretação, e não apenas como execução, também aparece no processo criativo apresentado por Anselmo. Antes de chegar à passarela, existe uma construção que envolve referências, formas e aquilo que se pretende comunicar ao público.


O processo criativo

Segundo o hairstylist, antes de chegar à passarela é realizado um mapa criativo para definir o que será desenvolvido, seja para o lançamento de uma coleção de roupas ou de produtos. O processo parte de um croqui e do estudo das formas, da origem e daquilo que se pretende refletir.


foto por @beautyfairprofissional
foto por @beautyfairprofissional

Na Beauty Fair, essa construção resultou em três linguagens: o bold street, pensado para o cotidiano e para uma mulher mais ousada; o cabelo preso para trás da orelha, fixado com spray e mais colado, que traz uma proposta elegante para diferentes momentos do dia; e os outros dois visuais, baseados em um editorial edgy e em uma proposta avant-garde, mais próxima da linguagem da passarela.


Todos esses looks foram pensados previamente com a stylist. Depois da escolha das roupas, Anselmo identifica o perfil da modelo que melhor corresponde a cada proposta, buscando criar uma imagem capaz de chamar a atenção do público e transmitir aquela linguagem de moda.


“A tendência é algo que ela está em tudo, né? Hoje ela tem uma relevância porque ela tá em tudo. Você traz não só tendências de fora do país, mas tendências do que é o nosso mercado brasileiro, do que a brasileira gosta, do que a brasileira veste, do que a gente pode trazer para impactar e deixar de ser mais do mesmo, né? Fugindo de um padrão e entregando algo novo, algo que gere desejo nela, algo que ela queira fazer, que ela queira ter no dia a dia, algo acessível e não só tendencioso.”


foto por @luismgueel
foto por @luismgueel

A fala aproxima a tendência daquilo que é desejável e possível para o cotidiano, mas também revela como a construção de uma imagem passa por diferentes linguagens antes de chegar ao consumidor.


Moda, cabelo e maquiagem

Na construção de um look, a imagem começa, segundo Anselmo, pela definição da modelo e daquilo que se pretende transmitir. No caso de um produto como a Passionine, último lançamento da Sebastian, a própria característica da linha orienta a criação: hidratação, flexibilidade, brilho, movimento e fluidez.


foto por @beautyfairprofissional
foto por @beautyfairprofissional

“Então, isso já vem: um cabelo hidratado, um cabelo que tem mais brilho, um cabelo que tem um movimento, mais bonito, um cabelo fluído. Então primeiro a gente define a modelo, e segundo a gente define como vai ser feito o cabelo. A gente gera desejo na nossa consumidora ou no espectador. E logo na sequência, a gente já trabalha com o stylist para o desenvolvimento da roupa, do look, combinando com a linguagem do produto que a gente quer lançar.”


É nesse momento que a maquiagem aparece como parte da composição, mas sem disputar o protagonismo com o cabelo. Para Anselmo, ela funciona como um complemento, enquanto cabelo e roupa precisam estabelecer uma conexão para que a imagem tenha coerência.


O conceito de Total Look, portanto, não trata apenas de somar elementos, mas de fazer com que eles dialoguem entre si. A roupa pode definir uma silhueta, a maquiagem pode alterar a leitura do rosto e o cabelo pode transformar a maneira como todo esse conjunto é percebido.


Essa relação também muda de acordo com o contexto. Em editoriais, campanhas e desfiles de grandes marcas, o processo começa meses antes, a partir do croqui do estilista, dos tecidos, das formas e das texturas que serão exploradas em uma coleção. A partir dessas informações, cabelo e maquiagem são desenvolvidos para que os elementos estejam conectados.


“E diferentemente do mercado de moda, o cabelo e a maquiagem passam a não ser o coadjuvante, vem como elemento que se conectam para entregar, para comunicar com a consumidora que vai ver tanto no desfile quanto no editorial de moda aquele resultado.”


A tradução para o cotidiano, porém, não significa simplesmente reproduzir aquilo que aparece na passarela. Existe uma interpretação necessária para que uma linguagem criada em um contexto específico possa fazer sentido para quem irá incorporá-la à própria vida.


Tendência e identidade


É justamente nesse ponto que a discussão sobre tendência encontra a identidade. Para Anselmo, a moda para cabelos ainda recebe muitas referências vindas da Europa, mas está cada vez mais aberta à personalidade da consumidora e às características de quem irá usar aquele visual.


Mais do que reproduzir uma tendência, o profissional precisa entender quem está diante dele. Para Anselmo, é a partir dessa leitura da personalidade, do cotidiano e do estilo de vida que uma proposta pode deixar de ser apenas uma referência externa e passar a fazer sentido para aquela pessoa.


“Hoje tudo está muito padronizado e já há muito tempo. E aí a quebra desse padrão é interessante porque a gente, na hora que a gente está com a nossa consumidora, com a nossa cliente, é ela que vem com esse padrão em busca de algo melhor pra ela e devemos direcionar e redirecionar ela ao que é melhor pra ela, o que vai ser bom para ela, e não o que ela traz de moda, que é o que a televisão vende, que é o que o rádio vende, que as influenciadores ou blogueiros vendem.”


Nesse sentido, a tendência deixa de ser apenas aquilo que chega de fora e passa a ser também aquilo que encontra espaço na identidade de quem a utiliza. A moda pode apontar caminhos, mas não precisa determinar o resultado final.


Foto por @beautyfairprofissional
Foto por @beautyfairprofissional

Talvez seja justamente aí que a moda tenha encontrado espaço dentro da Beauty Fair. Não pela presença de grandes coleções ou de uma passarela tradicional, mas pela compreensão de que a construção de uma imagem ultrapassa a roupa. Entre cabelos, maquiagem, formas, texturas e identidade, a beleza também constrói linguagem - e, quando esses elementos se encontram, a moda deixa de ser apenas aquilo que vestimos para se tornar também aquilo que comunicamos.

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