ART
Quando a arte aponta para o cosmos
Como representações do espaço, da tecnologia e do imaginário científico atravessam a produção artística contemporânea
Lucas Lissa
10 de janeiro de 2026

O diálogo entre a arte contemporânea e “O Universo dos Astronautas”, no Museu Catavento

Imersão sensorial e poética
Existe algo de profundamente humano nesse gesto de erguer o olhar ao céu.
Talvez por isso “O Universo dos Astronautas”, no Museu Catavento, em SP, funcione como uma travessia sensorial: uma experiência que costura ciência, narrativa e imaginação com a mesma delicadeza com que a arte contemporânea desloca o nosso olhar para o desconhecido.

A ambientação azulada - suave como um alvorecer lunar -, a sonorização interna que simula o interior da roupa espacial e a ocupação integral de trezentos metros quadrados com mais de cem itens expositivos compõem uma experiência pulsante. Vista do espaço, a Terra parece respirar. E nós, diante dela, também.
Foi curioso perceber que, mesmo sem encontrar a constelação de Aquário - meu signo - ou Virgem - meu ascendente - ou até a de Gêmeos - minha lua - entre os grafismos e luzes que desenhavam o céu, ainda assim me senti completamente situado. Talvez porque a mostra trabalhe com algo maior do que a precisão das estrelas: um tipo de acolhimento sensorial que reconhece até o que não está representado. Há experiências que, mesmo incompletas no mapa, completam algo em nós.
A mostra, curiosamente, dá materialidade à sensação evocada em Down Bad, de Taylor Swift. Mesmo sendo uma música sobre um amor que dá errado, algumas imagens - como ser arrancado da Terra por uma força maior - ecoam a sensação de suspensão e deslocamento que a exposição provoca:
“Você realmente me teletransportou em uma nuvem de poeira cintilante… mostrar que esse mundo é maior do que eu e você.” E quando deixamos a mostra, carregamos também o eco amargo-doce do verso: “Então me mandar de volta pro lugar de onde eu vim?”
Antes de entrar nos detalhes, vale destacar uma das grandes preciosidades do acervo: o traje usado por Charles Duke, astronauta responsável pelas comunicações com Neil Armstrong durante a Apollo 16. Cedido pela NASA e pelo Museu Cosmophere (Kansas, EUA), ele se torna o centro gravitacional da mostra - não apenas como objeto histórico, mas como símbolo de uma humanidade que ousa caminhar onde não deveria sequer sonhar.
O percurso: da origem à conquista
A narrativa é cronológica e sensorial. Logo na primeira sala, encontramos um meteorito de sete quilos, datado de milhares de anos. Um dos raros meteoritos do Catavento que os visitantes podem tocar: gesto simples, mas que aproxima o infinito da palma da mão. Ao redor, dez momentos históricos e cinco expositores compõem um mosaico de cooperação internacional e memória técnica.
Salas de ambientação
Sala Imersão
Uma reconstrução cenográfica do horizonte lunar, com crateras, relevos e a visão da Terra cintilando no fundo. É quase silenciosa — e, por isso, estrondosa.
Sala Céu e Espaço
Linha do tempo da relação humana com o céu: constelações em neon, grafismos ressaltados e painéis recortados. Destaca-se a área dedicada à Missão Centenário (2006), celebrando Santos Dumont e a participação brasileira na exploração espacial. Objetos pessoais do astronauta Marcos Pontes dão um tom íntimo à epopeia nacional.
Sala Apollo e a Lua
No ponto mais elevado da narrativa, o traje de treinamento de Charles Duke. Ao lado dele, um painel responde a perguntas que orbitam nosso imaginário desde a infância:
Como astronautas vão ao banheiro? O xixi sai voando? O que comem? Como dormem?
A exposição não infantiliza essas curiosidades - legitima o fascínio humano pelo cotidiano do extraordinário.

Quando ciência se torna narrativa - e narrativa, política
Assim como em Ponto de Impacto, de Dan Brown - livro que eu carregava comigo enquanto caminhava pela exposição -, a mostra apresenta o espaço como território de ficção científica, espetáculo tecnológico e disputa simbólica.
Dan Brown inventa um iceberg com supostos alienígenas; o Catavento apresenta objetos reais que moldam o imaginário coletivo. Ambos revelam uma verdade contemporânea: o olhar para o espaço é sempre uma construção cultural.
Essa dimensão está presente na grande tela touchscreen da Sala Apollo e a Lua, nas projeções mapeadas e no núcleo instagramável que contrasta tecnologias da década de 1960 com as de hoje. A exposição se aproxima da arte imersiva contemporânea - transformando informação em sensação, ciência em corpo, tecnologia em ambiente narrativo.

A moda como engenharia do impossível: o traje de Charles Duke
Belo e quase cerimonial, o traje A7-LB de Duke não é alta-costura - mas é o que há de mais próximo de vestir o impossível. Composto de 16 camadas de materiais resistentes, feitos de beta cloth (fibra de vidro revestida de teflon), ele protege, mantém vivo e permite movimento em ambiente sem perdão.
Sob ele, os astronautas usavam o macacão “Constant Wear Garment” (CWG), confortável e absorvente, que fixava sensores biométricos. Capacetes, luvas e o cronógrafo Omega Speedmaster completavam o conjunto padrão da NASA.
Além do traje de Duke, a mostra inclui a réplica do chapéu de Santos Dumont que viajou à ISS em 2006 - objeto que, ao ganhar um carimbo no espaço, vira quase uma peça de ficção científica brasileira. Esse material vem em colaboração com o Museu Space Adventure, de Canela (RS).



O cosmos como espelho: a ponte com Interestelar
Há, em “O Universo dos Astronautas”, algo que dialoga diretamente com Interestelar: o espaço não é apenas cenário, mas metáfora.
No filme de Christopher Nolan, a travessia espacial é, sobretudo, um retorno ao humano - reencontro com fragilidades, vínculos e limites. A mostra do Catavento opera no mesmo registro emocional: ao olhar a Terra de longe, entendemos quem somos de perto.
A arte contemporânea faz isso desde sempre; a exposição traduz essa operação em linguagem científica, sensorial e narrativa.

Museus científicos dialogam com a arte contemporânea
A exposição segue um percurso que começa no cosmos e termina no planeta: depois das três salas temáticas, voltamos às áreas permanentes - relevos da Terra, oceanos, espécies, filmes, fotografias. É como um pouso suave, um retorno à gravidade após uma deriva pelo desconhecido.
“O Universo dos Astronautas” prova que museus científicos podem dialogar com a arte contemporânea: ambos lidam com a mesma matéria-prima - imaginação, deslocamento, forma e discurso. E ambos nos lembram que a curiosidade humana é, talvez, nossa mais antiga forma de arte.
Informações práticas
Local: Museu Catavento – Av. Mercúrio, s/nº, Parque Dom Pedro II
Horário: De terça a domingo, das 9h às 17h (bilheteria até as 16h)
Ingresso: R$ 18 (gratuito às terças-feiras)
Período: Até 1º/02
Author Bio:
Lucas Lissa is a journalist specialized in culture. He investigates access to artistic production and develops critical reflections on art in exhibitions, cinema, theater, literature, and series.
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