ART
Quando a arte aponta para o cosmos
Como representações do espaço, da tecnologia e do imaginário científico atravessam a produção artística contemporânea
Lucas Lissa
January 11, 2026

O diálogo entre a arte contemporânea e “O Universo dos Astronautas”, no Museu Catavento

Imersão sensorial e poética
Existe algo de profundamente humano nesse gesto de erguer o olhar ao céu.
Talvez por isso “O Universo dos Astronautas”, no Museu Catavento, em SP, funcione como uma travessia sensorial: uma experiência que costura ciência, narrativa e imaginação com a mesma delicadeza com que a arte contemporânea desloca o nosso olhar para o desconhecido.

A ambientação azulada - suave como um alvorecer lunar -, a sonorização interna que simula o interior da roupa espacial e a ocupação integral de trezentos metros quadrados com mais de cem itens expositivos compõem uma experiência pulsante. Vista do espaço, a Terra parece respirar. E nós, diante dela, também.
Foi curioso perceber que, mesmo sem encontrar a constelação de Aquário - meu signo - ou Virgem - meu ascendente - ou até a de Gêmeos - minha lua - entre os grafismos e luzes que desenhavam o céu, ainda assim me senti completamente situado. Talvez porque a mostra trabalhe com algo maior do que a precisão das estrelas: um tipo de acolhimento sensorial que reconhece até o que não está representado. Há experiências que, mesmo incompletas no mapa, completam algo em nós.
A mostra, curiosamente, dá materialidade à sensação evocada em Down Bad, de Taylor Swift. Mesmo sendo uma música sobre um amor que dá errado, algumas imagens - como ser arrancado da Terra por uma força maior - ecoam a sensação de suspensão e deslocamento que a exposição provoca:
“Você realmente me teletransportou em uma nuvem de poeira cintilante… mostrar que esse mundo é maior do que eu e você.” E quando deixamos a mostra, carregamos também o eco amargo-doce do verso: “Então me mandar de volta pro lugar de onde eu vim?”
Antes de entrar nos detalhes, vale destacar uma das grandes preciosidades do acervo: o traje usado por Charles Duke, astronauta responsável pelas comunicações com Neil Armstrong durante a Apollo 16. Cedido pela NASA e pelo Museu Cosmophere (Kansas, EUA), ele se torna o centro gravitacional da mostra - não apenas como objeto histórico, mas como símbolo de uma humanidade que ousa caminhar onde não deveria sequer sonhar.
O percurso: da origem à conquista
A narrativa é cronológica e sensorial. Logo na primeira sala, encontramos um meteorito de sete quilos, datado de milhares de anos. Um dos raros meteoritos do Catavento que os visitantes podem tocar: gesto simples, mas que aproxima o infinito da palma da mão. Ao redor, dez momentos históricos e cinco expositores compõem um mosaico de cooperação internacional e memória técnica.
Salas de ambientação
Sala Imersão
Uma reconstrução cenográfica do horizonte lunar, com crateras, relevos e a visão da Terra cintilando no fundo. É quase silenciosa — e, por isso, estrondosa.
Sala Céu e Espaço
Linha do tempo da relação humana com o céu: constelações em neon, grafismos ressaltados e painéis recortados. Destaca-se a área dedicada à Missão Centenário (2006), celebrando Santos Dumont e a participação brasileira na exploração espacial. Objetos pessoais do astronauta Marcos Pontes dão um tom íntimo à epopeia nacional.
Sala Apollo e a Lua
No ponto mais elevado da narrativa, o traje de treinamento de Charles Duke. Ao lado dele, um painel responde a perguntas que orbitam nosso imaginário desde a infância:
Como astronautas vão ao banheiro? O xixi sai voando? O que comem? Como dormem?
A exposição não infantiliza essas curiosidades - legitima o fascínio humano pelo cotidiano do extraordinário.
