FASHION
Schiaparelli Haute Couture: O Surrealismo como Arte Viva
Com uma fusão dramática entre surrealismo, iconografia marítima e arquitetura, Daniel Roseberry transforma o desconhecido em matéria-prima para a coleção "The Abyss" e reafirma a Schiaparelli como um dos maiores locais criativos da alta-costura contemporânea
Lucas Lissa
31 de julho de 2026

A Maison Schiaparelli, uma das mais famosas casas de alta-costura e vanguardista teatral de Paris, voltou a ocupar o centro das atenções na abertura da Paris Haute Couture Week de julho de 2026. Apresentado no Petit Palais, Museu de Belas Artes da Cidade de Paris, o desfile da coleção “The Abyss” aconteceu no dia 6 de julho e reafirmou a posição da maison entre as casas mais influentes da alta-costura francesa. O trabalho de Daniel Roseberry, primeiro norte-americano a assumir a direção criativa de uma tradicional casa de alta-costura no País, apresentou uma coleção de forte carga dramática e demonstrou que o risco criativo continua sendo o alvo principal da Schiaparelli.

Intitulada "The Abyss", a coleção estabelece um diálogo entre o surrealismo, a iconografia marítima e a arquitetura orgânica. Criaturas marinhas, formas celestes e volumes que parecem desafiar a gravidade e transformam cada look em uma peça de contemplação artística. Em vez de seguir tendências, Roseberry reafirma a alta-costura como lugar de experimentação, onde o design conceitual se sobrepõe ao convencional.

A descrição oficial publicada pela Maison Schiaparelli revela que a coleção nasceu da expressão francesa l'appel du vide, "o chamado do vazio", em tradução livre, e de uma visita do estilista à Barcelona para estudar a obra de Antoni Gaudí (1852 - 1926), arquiteto espanhol e expoente do modernismo catalão. A partir dessas referências, Roseberry constrói uma narrativa sobre o desconhecido e transforma a tensão do bloqueio criativo, observado pelo estilista em entrevista à Vogue Runway, em combustível para a criação artística.

Essa proposta dialoga diretamente com a fundadora da maison, Elsa Schiaparelli (1890 - 1973). Desde a década de 1930, Schiaparelli estabeleceu uma relação profunda entre moda e surrealismo ao colaborar com artistas como Jean Cocteau (1889 - 1963) e Man Ray (1890 - 1976). Daniel Roseberry não reproduz essas referências literalmente, ele atualiza com novas tecnologias, materiais e formas escultóricas e mantém viva a essência experimental da marca.
As notas da Fédération de la Haute Couture et de la Mode reforçam a importância da Schiaparelli dentro do calendário oficial da alta-costura parisiense. Tradicionalmente escolhida para abrir a semana de desfiles, a maison tornou-se um dos principais termômetros criativos da temporada e assumiu o papel de antecipar discussões estéticas que costumam repercutir ao longo de toda a semana de moda.
Nas passarelas, Roseberry abandona tecidos convencionais para experimentar materiais como látex moldado, silicone e superfícies que criam o efeito de segunda pele. Em algumas produções, elementos tecnológicos são incorporados à construção das peças e estabelecem uma fronteira entre corpo, escultura e vestimenta. Essas silhuetas escultóricas revelam o verdadeiro propósito da coleção: transformar a alta-costura em obras de arte vestíveis.
Inspiradas por formas biomórficas, as peças saem da anatomia convencional e deslocam o volume para quadris, coxas e pernas. O resultado cria proporções inesperadas: caudas e estruturas orgânicas invocando criaturas das profundezas do oceano; e efeito de segunda pele que harmoniza a geometria dos corpos. Mesmo para quem não acompanhou o desfile presencialmente, as imagens oficiais da Maison Schiaparelli permitem contemplar os detalhes de cada criação.
A cobertura da Vogue Runway destaca que “Daniel Roseberry encara a alta-costura como uma travessia constante entre a agonia e o êxtase criativo”. Em vez de repetir fórmulas consagradas, o estilista assume riscos e mantém um equilíbrio entre a sofisticação técnica e ousadia estética. Essa mesma perspectiva é aprofundada pela Another Magazine, que aponta o bloqueio criativo de Roseberry como ponto de partida inspirado no poema Du Dunkelheit, Tu Escuridão, em tradução livre, de Rainer Maria Rilke. Na obra, o poeta prefere a escuridão que a luz e encontra nela algo único e pertencente. Roseberry transformou sua vulnerabilidade, como no próprio poema expressa, em potência criativa e faz do corpo humano uma plataforma para esculturas vivas e a alta-costura reafirmada como um verdadeiro espaço de liberdade artística.
As joias tridimensionais reforçam o imaginário ao assumirem formas de tentáculos, conchas e corais, enquanto as estruturas metálicas criam profundidade e sombra que ampliam a dimensão escultórica da coleção.

Mais do que apresentar roupas, a Schiaparelli reafirma a alta-costura como um território onde arte, arquitetura, escultura e moda coexistem. Em um momento em que grande parte da indústria da moda privilegia a velocidade e o consumo imediato, Daniel Roseberry consolida a linguagem viva do surrealismo e não a deixa apenas como uma referência histórica.
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