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ART
Oscar 2026: ‘Sonhos de Trem’ e a paisagem da memória
Com fotografia do brasileiro Adolpho Veloso, o filme transforma paisagem e silêncio em uma reflexão sobre memória e passagem do tempo
Lucas Lissa
19 de março de 2026

O Academy Awards aconteceu no último domingo, 15 de março, e o filme Sonhos de Trem chegou à premiação com quatro indicações - incluindo Melhor Filme, Fotografia, Roteiro Adaptado e Canção Original - consolidando-se como uma das obras mais contemplativas da temporada. Mais do que a disputa por uma estatueta - o prêmio da categoria foi conquistado por Autumm Durald Arkapaw, pelo filme Pecadores - o longa dirigido por Clint Bentley propõe uma reflexão delicada sobre memória, perda e permanência.

Dirigido por Bentley, Train Dreams - lançado no Brasil como Sonhos de Trem - venceu o Prêmio Independent Spirit de Melhor Diretor 2026, Prêmio AFI: Melhor Filme do Ano 2026, Prêmio Independent Spirit de Melhor Filme 2026 e Critics’ Choice Award: Melhor Fotografia 2026, ao adaptar a obra curta de Denis Johnson, publicada em 2002, e acompanhar a vida de Robert Grainier, um trabalhador braçal que atravessa décadas de transformação no oeste norte-americano durante o início do século XX.
Interpretado por Joel Edgerton, Robert é um homem silencioso cuja trajetória é moldada tanto pelo trabalho duro quanto pelas perdas que marcam sua existência. Ao seu lado está Gladys, vivida por Felicity Jones, figura central em sua vida até que uma tragédia inesperada redefine completamente o percurso do personagem.

Ambientado entre florestas, trilhos de trem e pequenas cidades em formação, o filme acompanha décadas da vida de Robert, um homem comum, cuja história se constrói em meio às mudanças sociais e tecnológicas que atravessam os Estados Unidos do século XX.

A ruptura da memória
A morte imprevisível de Gladys e da filha do protagonista estabelece um dos eixos emocionais centrais da narrativa. O momento em que Robert se dirige ao local do incêndio, ainda sustentando a esperança de que ambas possam ter sobrevivido, carrega uma tensão silenciosa que remete aos dramas clássicos: a expectativa de que, apesar de tudo, o personagem consiga recuperar aquilo que perdeu.

A partir dessa ruptura, o filme passa a acompanhar a forma como ele lida com a solitude e com o peso da ausência. Cada deslocamento, cada encontro ao longo de seus trabalhos, parece atravessado pela memória de uma vida que já não existe mais da mesma maneira.
A fotografia como linguagem
Nesse percurso, a fotografia - assinada por Adolpho Veloso, primeiro brasileiro a ser indicado ao Oscar de Melhor Fotografia - torna-se um dos elementos mais marcantes da obra.
Antes de escrever este artigo, houve diversas tentativas de contato com a assessoria de Veloso para um pingue-pongue sobre temas como a relação entre imagem, memória e luto; a fotografia como linguagem narrativa; e as escolhas estéticas que vão além da técnica. Mais do que analisar o filme, a intenção era aprofundar aspectos artísticos que ainda não haviam sido explorados em outras entrevistas publicadas.

Embora n ão tenha havido retorno, a própria obra permite destrinchar a belíssima construção poética da imagem, o uso sensível da luz e a relação entre forma e emoção narrativa. Torna-se perceptível que a paisagem não funciona apenas como cenário: ela se transforma em linguagem. As florestas, os horizontes amplos e a luz natural criam uma atmosfera contemplativa em que o tempo parece suspenso.
Há uma sensação curiosa ao longo do filme: seus elementos parecem possuir autonomia. Se restassem apenas os diálogos, ainda haveria um filme. Se restassem apenas as imagens, ele também continuaria existindo. Essa dualidade entre palavra e imagem reforça a dimensão sensorial da narrativa.
Entre memória e realidade
Um dos momentos mais marcantes surge na ambiguidade do retorno da filha. O filme nunca esclarece completamente se aquilo que vemos pertence ao plano da realidade ou da memória, criando um instante de suspensão que transforma a experiência do espectador em algo profundamente subjetivo.

Ao longo de sua jornada, Robert também encontra outras figuras que atravessam sua vida, como Claire Thompson, interpretada por Kerry Condon, e Arn Peeples, vivido por William H. Macy - personagens que ampliam o universo humano ao redor do protagonista e reforçam a dimensão coletiva de sua trajetória.

O tempo visto do alto
No desfecho, quando o personagem - que permanece vivendo anos isolado após a morte da esposa e da filha - retorna à cidade e se depara com sinais de um mundo em transformação, como a transmissão televisiva da chegada do homem à Lua ou o momento em que se vê refletido no espelho de um teatro, o filme parece articular passado e futuro dentro de uma mesma experiência de tempo.
Acompanhado por uma narrativa contemplativa e por uma fotografia de rara delicadeza, o final encontra sua imagem definitiva quando Robert olha para o céu ao voar, pela primeira vez, em um pequeno avião. Lá do alto, a paisagem parece condensar toda a sua trajetória, como se cada acontecimento - inclusive os mais dolorosos - tivesse participado de um percurso inevitável que o levou exatamente até aquele ponto.

Em Sonhos de Trem, a paisagem não apenas enquadra a história: ela guarda as marcas da vida que passou por ela. É justamente nessa relação entre imagem, memória e passagem do tempo que o filme encontra sua força mais duradoura.
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Author Bio:
Lucas Lissa is a journalist specialized in culture. He investigates access to artistic production and develops critical reflections on art in exhibitions, cinema, theater, literature, and series.
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