Entre técnica e mercado: quem define as tendências na beleza hoje?
- Lucas Lissa
- há 6 dias
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O Hair Summit 2026, um dos principais eventos de beleza da América Latina, aconteceu entre os dias 12 e 14 de abril, no pavilhão azul do Expo Center Norte, em São Paulo. Entre ativações comerciais e demonstrações técnicas, a feira se consolida menos como vitrine de novidades isoladas e mais como um dispositivo de construção de tendências — um espaço onde mercado, linguagem e desejo se articulam em tempo real.

Mais do que reunir cabeleireiros, donos de salão e profissionais do setor, o evento evidencia como as tendências deixam de ser apenas criações estéticas para se tornarem narrativas compartilháveis. Em entrevista à Sguardo Art, Thay Sant’Anna, proprietária do Espaço de Beleza Thay Sant’Anna, observa que o Hair Summit opera também como um mecanismo de validação.
“Quando um profissional sobe no palco e apresenta uma técnica, ele não está só ensinando, está legitimando aquilo como tendência. Existe um movimento claro de mudança no discurso. Antes, o impacto estava no ‘antes e depois’. Hoje, o que ganha força é o pertencimento e a naturalidade.”

Essa mudança de eixo desloca a centralidade da transformação radical para a identificação. Se antes a promessa era a ruptura, agora o valor está na continuidade possível — aquilo que o consumidor consegue sustentar no cotidiano. Nesse processo, influenciadores de beleza assumem o papel de mediadores entre o técnico e o desejável.
“Eles traduzem o que é apresentado de forma profissional para a realidade do público. Mas existe um filtro maior: o consumidor percebe quando é só publicidade. Por isso, performam melhor aqueles que mostram rotina, manutenção e realidade, não só resultado imediato”, explica Sant’Anna.

O que se vê, portanto, não é apenas a circulação de tendências, mas a sua adaptação a um público mais informado e criterioso. A cliente contemporânea pesquisa, compara e questiona — o que não elimina o apelo aspiracional, mas exige que ele seja sustentado por uma promessa plausível. Nesse cenário, a ideia de tendência também se desloca: deixa de apontar para um padrão dominante e passa a operar como referência flexível.
Com mais de 8 mil m² de área de exposição e a presença de milhares de profissionais, o Hair Summit reforça essa dinâmica ao reunir marcas, educadores e criadores de conteúdo em um mesmo ecossistema. No entanto, o destaque não recai sobre uma técnica específica, mas sobre um conceito mais amplo.
“A tendência que mais cresce hoje é a individualidade. O trabalho do profissional é traduzir o que vê em algo possível para cada cliente, considerando estilo de vida, tipo de cabelo e rotina. É isso que gera conexão e fidelização”, afirma.

Ao final, o evento evidencia que a tendência, hoje, não nasce exclusivamente da inovação técnica, mas da capacidade de articulação entre indústria, discurso e experiência cotidiana. Mais do que lançar o novo, encontros como o Hair Summit funcionam como instâncias de validação — onde práticas que já circulam nos bastidores são organizadas, nomeadas e devolvidas ao mercado como tendência.
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