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Cais das Artes: a construção de um horizonte possível

  • Writer: Lucas Lissa
    Lucas Lissa
  • 4 days ago
  • 4 min read

Updated: 4 days ago

Entre debates, interrupções e retomadas, o novo centro cultural capixaba busca reposicionar o Espírito Santo no mapa sensível brasileiro - e inaugurar um espaço onde arquitetura, política e desejo público se entrelaçam



A reinauguração de uma promessa


Debatido, polêmico e por vezes transformado em símbolo de impasse, o Cais das Artes volta a ganhar contorno. Depois de mais de uma década marcada por paralisações, revisões contratuais e suspeitas de irregularidades, o complexo projetado por Paulo Mendes da Rocha - um dos arquitetos mais decisivos da modernidade brasileira - deve ser entregue em duas etapas: a primeira em 2025; o teatro, no final do primeiro semestre de 2026.


A escala do projeto e seu imaginário arquitetônico o aproximam de obras como o Museu Nacional dos Coches, em Portugal; a Capela de São Pedro, em Campos do Jordão; e o icônico Pavilhão do Brasil na Expo Osaka de 1970. Todas elas compartilham a contundência espacial, a honestidade estrutural e o compromisso com o público que atravessam o legado de Mendes da Rocha, que nos deixou em 2021.



Um gesto arquitetônico para além da forma


O Cais das Artes nasce como complexo de múltiplas vocações: teatro com 1,3 mil lugares - apto a receber inclusive grandes óperas -, museu com 2,3 mil m² distribuídos em cinco salas de exposição, auditório para 225 pessoas, biblioteca, cafeterias e uma praça ao ar livre pensada para ser permeável, viva e permanentemente povoada.


O governo do Espírito Santo afirma que a obra, hoje avaliada em R$ 183 milhões, representa não apenas a retomada de um projeto interrompido, mas a reconfiguração do lugar do estado no cenário cultural brasileiro. Cerca de 200 trabalhadores atuam diariamente na construção, que o governo promete concluir dentro do novo cronograma.


Para Priscila Coelin, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Espírito Santo (CAU/ES), o equipamento cultural atende a uma carência histórica: “A gente precisa realmente de um espaço para intercâmbio, para trazer coisas de fora e promover uma troca com os nossos locais”. A frase ecoa um sentimento comum entre artistas capixabas que, há anos, veem na ausência de grandes espaços expositivos um entrave à circulação de obras, ideias e experiências.



Anos de interrupções, um futuro em construção


A obra começou em 2010 com investimento inicial de R$ 115 milhões e previsão de conclusão em 2012. Nada disso se concretizou. A primeira empreiteira abandonou o projeto; sucessivas suspeitas de irregularidades travaram novas tentativas de andamento; mudanças políticas alteraram prioridades; e o Cais, aos poucos, ganhou a sombra de um monumento inacabado.


Somente em 2023, após acordo entre o governo estadual e o Poder Judiciário, o projeto voltou a avançar. A nova fase incluiu readequações contratuais, revisões técnicas e a consolidação do valor total: R$ 183 milhões.


Agora, além de finalizar a obra física, o governo trabalha ao lado da Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI) para selecionar uma organização social responsável pela gestão cultural e pela construção de uma agenda permanente de eventos - etapa crucial para que o Cais das Artes não seja apenas edificado, mas efetivamente vivido.


O Cais dentro do Brasil cultural


A criação do Cais das Artes coincide com um movimento mais amplo: cidades brasileiras redescobrem o poder simbólico e urbano dos equipamentos culturais. Do Theatro Municipal, da Catedral da Sé e do CCBB, em São Paulo, ao Palácio do Catete, Museu da República e MAM, no Rio de Janeiro; do Instituto Mário Mendonça e do Museu da Liturgia, em Minas Gerais, à Catedral Metropolitana e ao Memorial JK, em Brasília; do Museu Cais do Sertão, em Pernambuco, ao Forte do Castelo, no Pará; passando pelo Teatro Amazonas e pelo Museu da Amazônia - o país revela uma geografia de cultura tão extensa quanto sua própria paisagem.


Cada centro cultural muda algo essencial: amplia o horizonte. Democratiza o acesso. Reposiciona subjetividades. Cria espaços de fricção, encontro e memória compartilhada. A arte, antes percebida como enclave elitista, torna-se experiência cotidiana — quase respirável.



Entre forma e discurso: o que o Cais das Artes anuncia


O novo Cais das Artes pretende inscrever o Espírito Santo nesse mapa. Mas mais que isso: pretende ressignificar a própria narrativa que carregou ao longo dos últimos anos. De obra interrompida a símbolo de futuro, o Cais tenta se reconstruir como espaço de pertencimento.


O complexo busca potencializar três dimensões fundamentais:


• A inclusão social, ao oferecer acesso democrático a espetáculos, exposições e formação;


• O florescimento intelectual e sensível, ao gerar repertório, estimular pensamento crítico e ampliar referências;


• A identidade coletiva, ao conectar artistas, público e território em uma mesma experiência estética.


É, no fundo, o que Paulo Mendes da Rocha sempre defendeu: a arquitetura como campo de vida pública. Não apenas edifício, mas gesto. Não apenas forma, mas discurso.



Um lugar onde o Brasil se encontra consigo mesmo


Se cumprido o cronograma, o Cais das Artes não será apenas a entrega tardia de uma obra monumental. Será a oportunidade de realinhar expectativas, de criar um polo de circulação internacional e, sobretudo, de permitir que o Espírito Santo seja percebido na escala que merece - sensível, plural, vivo.


No encontro entre arquitetura modernista, política cultural e desejo coletivo, talvez o maior legado do Cais das Artes seja esse: não entregar uma promessa antiga, mas inaugurar um novo começo.



Author Bio:


Lucas Lissa is a journalist specialized in culture. He investigates access to artistic production and develops critical reflections on art in exhibitions, cinema, theater, literature, and series.





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