‘The Life of a Showgirl’ é o renascimento das cinzas de uma poeta — dessa vez, esbanjando o prazer e o luxo do showbusiness.
- Izabella Castro
- Oct 13, 2025
- 4 min read
Updated: Oct 17, 2025

A nova era de Swift
A transição de estética adotada pela cantora é perceptível e intencional. Onde antes a narrativa explorada de seu último trabalho foi de fatalismo, sonhos perdidos e um amor trágico, trazendo como base um lirismo melancólico que dividiu a crítica, o novo álbum da cantora "The Life of a Showgirl" explode em uma celebração de cores e autoconfiança que promete redefinir o cenário da música pop em 2025.
Mas o que define, de fato, essa estética de showgirl? E o que a escolha por essa figura tão complexa e marcante revela sobre o novo momento de Taylor Swift?
O nascimento das showgirls
Segundo Jane Merrill, autora da obra “The Showgirl Costume: An Illustrated History” (2018), na Inglaterra do século XVIII, o termo showgirl tem sido fluido. Uma expositora do glamour feminino, traduzindo uma jovem mulher que agia de forma vistosa para atrair a atenção masculina. Entretanto, em meados do século XIX o termo passou a significar uma cantora e dançarina em apresentações de music hall (casa de espetáculos variados envolvendo música). Se o show era uma paródia, ela seria uma dançarina burlesca. Se seu ato era de striptease, então ela seria uma stripper. Se carregava um adereço, podia ser uma dançarina de leque (fan dancer), o que foi moda nas primeiras décadas do século XX.
"É tão da natureza feminina ter uma fantasia de ser uma showgirl, de exibir seu físico para uma plateia imaginária dentro de um paraíso de segurança, como um palco, quanto é para um jovem rapaz exibir seus músculos. Ela enrola o cabelo com uma toalha, o corpo com outra, e se sente como a Vênus de Botticelli caminhando sobre as ondas. Exibir-se é uma das maneiras pelas quais uma autoimagem saudável se forma."
— Jane Merrill em “The Showgirl Costume: An Illustrated History” (2018)

Jane comenta na obra sobre a descoberta que a showgirl era o pôster vivo do próprio glamour, destacando pontos-chave sobre a economia da França da época, indo desde o consumismo desenfreado, luxo, sensualidade e exposição, alçando corpos femininos, carregando adornos e pedrarias em seu pescoço em um convite, acima de tudo, impossível de ignorar.
O glamour, teoriza Stephen Gundle, surgiu entre 1900 e 1914 em um clima capitalista da Terceira República, quando o “entretenimento e a exibição tornaram-se mais desenvolvidos e sistemáticos, bem como mais variados. Abriu-se o que parecia ser uma utopia do desejo na qual todos podiam, em algum grau, participar.”
De Paris a Las Vegas: a construção de um ícone
O arquétipo é um manifesto de extravagância, sensualidade e glamour, construído e refinado ao longo de mais de um século. As showgirls no sentido moderno datam do final do século XIX nos palcos da Belle Époque parisiense. O teatro Folies Bergère, inaugurado em 1869, foi pioneiro em apresentar mulheres em trajes elaborados, cujo propósito era mais ornamental do que teatral.
Conforme documentado em arquivos históricos do próprio teatro, a ideia principal era criar “tableaux vivants” (quadros vivos), onde as mulheres eram parte vital de uma cenografia grandiosa, extravagante e de caráter imersivo. Inspirada em diversos temas, as performances misturavam o luxo da Art Nouveau, elementos boêmios e referências exóticas. A nudez era insinuada, mas o foco estava nos figurinos grandiosos, especialmente nos adereços de cabeça, que se tornariam uma marca registrada.

Mais tarde, em 1881, o artista francês Rudolf Salis levou o cabaré um passo adiante ao inaugurar o Le Chat Noir. A princípio, o local funcionava como um refúgio em forma de salão artístico para colegas artistas, tornando-se posteriormente um dos cafés mais populares de Paris.
Com o tempo, o espaço se tornou um dos mais populares de Paris, e sua programação de variedades inspirou imitadores como Joseph Oller e Charles Zilder, que abriram seu próprio espaço em 1889: o histórico Moulin Rouge. O cabaré foi fundado aos pés da Colina Montmartre, com o objetivo de oferecer um lugar de divertimento popular a um público diversificado.

Do outro lado do Atlântico, em 1907, o americano Florenz Ziegfeld Jr. emergiu no showbusiness, refinando e popularizando essa visão que dominaria Las Vegas mais tarde com suas “Ziegfeld Follies”.
Ziegfeld tinha um lema que colocava em prática nesse espaço: “Glorifying the American Girl”, onde seus espetáculos eram conhecidos pela beleza, moda e glamour. Como observa a historiadora Elspeth Brown, algumas das mulheres nessas revistas eram, na verdade, impedidas de serem modelos em vez de dançarinas ou atrizes, colocando o “espetáculo” em showgirl ao “desfilarem roupas diante do público”.

Essa tradição de excesso calculado encontrou mais tarde seu maior mestre na figura do designer Bob Mackie. Sua colaboração com a cantora e atriz Cher a partir dos anos 70 redefiniu a figura para a era da televisão.

Mackie entendia que o figurino precisava ser espetacular tanto ao vivo quanto na tela. Em uma entrevista para o Costume Designers Guild, ele explicou o conceito que seguia: “É melhor ser notado do que ignorado”, reforçando a ideia de que a showgirl não era um objeto passivo, mas uma mulher no comando de sua própria imagem, dona de sua própria sensualidade e confiança — uma narrativa que Taylor Swift parece ansiosa a querer refletir nessa nova fase de sua vida.

Em sua nova era, Taylor Swift não está apenas se vestindo de showgirl, mas também evocando o poder simbólico e definitivo da figura, alinhando-se a uma linhagem de mulheres que usaram o espetáculo como forma de entretenimento e autoafirmação, reforçando um legado que não apenas caminha nos palcos, mas também no teatro, na moda e na história da arte.
















